15 Mar

Dedetização/desinsetização e o Controle Integrado de Pragas Urbanas

O Controle pragas urbanas é um tema relativamente novo se tratando de dedetização. Foi a partir da década de 80, após o uso descontrolado do DDT que as pessoas começaram a tomar consciência dos graves problemas ambientais e prejuízos à saúde que este uso causou. Aliás, é por causa do DDT largamente utilizado que acabou generalizando toda a ação de dedetização. Hoje chamamos de desinsetização. Novas técnicas e produtos começaram a ser desenvolvidos até chegarmos ao tema deste artigo. O controle integrado tem por objetivo o manejo de pragas de forma sustentável. Desta forma existe uma série de procedimentos e normas que devem ser seguidas com a finalidade de preservar à nossa saúde e os recursos ambientais. 

Antes de falar em controle integrado de pragas e dedetização, é necessário definir pragas urbanas. São espécies de insetos e pequenos animais que infestam os grandes centros urbanos e coexistem com os seres humanos independente de sua vontade, podendo causar danos à nossa saúde. A Instrução Normativa 141 do IBAMA (BRASIL 2006) define estes animais como fauna sinantrópica* nociva, “que interage de forma negativa com a população humana, causando-lhe transtornos significativos de ordem econômica ou ambiental, ou que represente riscos à saúde pública.”

Dedetização - Controle Integrado Pragas - Protocolo Sanitas - Conceito 4 As

Estes animais estão em busca de água, alimento, abrigo e acesso (conceito dos “4 As” muito utilizado no controle integrado das pragas). Estes são os fatores fundamentais para a existência de qualquer ser vivo e com as pragas não poderia ser diferente. Com o crescimento desordenado da população e o aumento da favelização em muitos bairros, principalmente do Rio de Janeiro há um incremento da produção de resíduos sólidos e precariedade na rede de esgoto sanitário. Todos esses fatores favorecem a proliferação das pragas urbanas, aproveitando-se de dejetos e rejeitos humanos.

Condições de vulnerabilidade da população que possibilitam a maior proliferação de doenças transmitidas por vetores ou pragas urbanas

Nosso país tem proporções continentais, existem várias áreas severamente comprometidas por problemas socioambientais como falta de saneamento básico e ocupação desordenada do solo urbano. De norte a sul é possível verificar um aumento de doenças causadas por pragas. Neste artigo citaremos dois casos, um numa das regiões mais afetadas que é a região Amazônica e outro caso no sudeste. 

Em muitos estados brasileiros como no Pará há precariedade na rede de esgoto, menos de 10% de Paraenses tem acesso a rede de esgoto (dados do G1 em abril de 2018). Em Santarém, que é o segundo maior município do estado, falta saneamento básico no centro da cidade, é possível ver o esgoto passando a céu aberto no meio-fio. Todo ou quase todo o esgoto da cidade é jogado diretamente no Rio Tapajós. A região amazônica tem um alto índice de doenças relacionadas à água, principalmente dengue, malária, hepatite (segundo o site Atual Amazonas) e febre amarela (Fiocruz). 

Na região sudeste esse quadro não é muito diferente. No Rio de Janeiro que é considerada a cidade que mais recebe turistas no Brasil, os processos de favelização tem avançado rapidamente o que implica diretamente num maior número de resíduos sólidos acumulados, que gera um aumento dos casos de doenças causadas por vetores e pragas urbanas. 

Retomando o tema... mas o que seria o controle integrado de pragas urbanas? 

O controle integrado visa uma maior eficiência na dedetização/desinsetização de pragas urbanas aliando as medidas preventivas e corretivas, buscando usar o mínimo possível de pesticidas com o uso discriminado de produtos químicos (domissanitários**) pensando sempre na preservação ambiental. 

Mas nem sempre o controle de pragas assegurava a prática sustentável, pois causava prejuízo ao meio ambiente. Muitas empresas e pessoas não capacitadas ainda utilizam métodos antigos e não se preocupam com a legislação vigente. Utilizam produtos inadequados de forma descontrolada, sempre visando o maior lucro possível e alta rentabilidade financeira, alterando com isso a fauna e flora locais, poluindo solos, águas superficiais e o lençol freático. 

O início de tudo...

Enquanto o homem era nômade (ou seja, vivia do extrativismo tanto animal quanto vegetal e os recursos se esgotavam em uma determinada localidade, eles iam em busca de um novo local onde tivesse abundância de alimentos) mantinha-se livre do que conhecemos hoje como pragas.

Quando o homem começou a se fixar nos lugares, e os primeiros abrigos foram as cavernas, ele começou a gerar resíduos. Isto fez com que muitos animais começassem a migrar do meio ambiente onde viviam para os lugares onde havia comida em abundância, ou seja, dividir o mesmo ambiente como os humanos. Assim as primeiras pragas, começaram a se proliferar mais rapidamente. Além disso, o homem começou a plantar o seu alimento próximo da sua habitação e sempre no mesmo lugar isso fez com que várias espécies de animais viessem procurar o alimento fácil. 

Na época medieval (séc. III ao XV) foi marcada por um período de muitas doenças (peste bulbônica) já que os feudos eram lugares muito sujos, sem condições de higiene para a população, o que propiciava ainda mais a proliferação de vetores transmissores (ratos) de doenças que afetam a saúde dos moradores.  

Muitos artifícios eram utilizados para manter as pragas por longe, desde a utilização de espantalhos (contra aves que consumiam as plantações de grãos) à simples fórmulas caseiras repelentes contra mosquitos, contra baratas (naftalinas), cânfora, misturas utilizando querosene, álcool, fumo de rolo, entre outras que muitas vezes só afastavam estes animais indesejados e não controlava sua proliferação .   

Segundo D’Amato et al. (2002) e Chaves (2016) em 1939 Paul Muller, pesquisador suíço descobriu o DDT (dicloro-difenil-tricloro etano) e a partir destes muitos outros compostos foram criados. Esse composto “extraordinário” era capaz de exterminar as pragas de mais difícil controle, com baixo custo e alta eficácia. Foi muito utilizado na segunda guerra Mundial no combate as pragas que infestavam os soldados e no período pós-guerra na agricultura e no controle de pragas tropicais, tanto no Brasil como no mundo. No entanto os riscos de se utilizar o DDT desordenadamente (no auge da produção chegou a 81.154 toneladas em 1963), comprometeu drasticamente tanto o meio ambiente quanto à saúde da população.  Em 1970, a exemplo da Suécia, começou a erradicação do uso do DDT e organoclorados no mundo todo. No Brasil as primeiras proibições e restrições foram no ano de 1971. Atualmente percebemos com clareza uma tendência para uso de inseticidas de forma restrita, consciente e ecologicamente mais adequada. 

Dedetização - problemas no uso do DDT

É fato que o DDT foi proibido devido à sua alta toxicidade. Mas o que poderia acontecer se não fosse proibido o seu uso? Como o DDT pode afetar seres humanos e o meio ambiente. 

Segundo D’Amato et al. (2002) o ser humano pode ser contaminado por inalação ou ingerindo alimentos que tenham sido pulverizados com DDT e demais organoclorados. Todos os organoclorados acumulam-se ao longo da cadeia alimentar, sendo assim o homem como último consumidor é que mais reúne o “veneno” em seu organismo.  O DDT atua no sistema nervoso central com alterações do equilíbrio, comportamentais, da atividade da musculatura involuntária, mais comumente da respiratória. Em casos de intoxicação aguda pode ter como sintomas desde um simples desconforto, à ser levado ao coma ao à morte. Existe uma grande probabilidade do DDT estar associado à diversos tipos de câncer, devido ao seu efeito acumulativo, principalmente no tecido adiposo, é o que diz o site da CDC (Center for Disease Control and Prevetion). Segundo matéria publicada em 2015 na Revista internacional National Geograph, mulheres que foram expostas a altas concentrações de DDT, têm risco quadruplicado de desenvolver câncer de mama. 

A contaminação ambiental é um fato irrefutável. Resíduos de DDT e outros poluentes orgânicos persistentes (POPs) estão presentes em todas as partes do planeta Terra, inclusive em áreas remotas com em altitudes elevadas dos Alpes chilenos, pólos norte e sul. Este transporte é realizado via animais marinhos, correntes de ar e oceânicas (D’Amato et al. 2002). Segundo o mesmo pesquisador “As taxas de acumulação variam entre as espécies, e de acordo com a concentração, as condições ambientais e o tempo de exposição.” DDT e POPs são acumulados nos organismos tanto pelo contato com o meio ambiente quanto pela alimentação. Desta forma toda a cadeia alimentar é afetada, desde plantas que retiram do solo os minerais e água (solo e água podem estar contaminados), quanto herbívoros (que consumem as plantas contaminadas), quanto carnívoros (que comem os herbívoros contaminados), quanto os detritívoros (que consomem todos os elementos da cadeia alimentar depois de sua morte). Quanto mais perto do topo de cadeia estiver o ser vivo, mais compostos POPs ele terá armazenado em seu organismo, pois os compostos organoclorados não são eliminados do organismo se acumulando a cada nível da cadeia. 

Então ratos, baratas e cupins tomarão conta do mundo?

Claro que não! Logo após a proibição do DDT e demais compostos organoclorados, foram surgindo outros compostos sintéticos para substituir o DDT com a mesma eficácia. Como alternativa, em dedetização, passou-se a utilizar os compostos organofosforados, mais conhecidos como agrotóxicos organofosforados. Existe uma infinidade de formulas das quais 40 delas são utilizadas como inseticidas. A diferença entre os compostos organoclorados e organofosforados é que ao contrário dos primeiros, estes não são acumulados pelo organismo, eles são eliminados através das fezes e/ou urina. São bastante utilizados como inseticidas devido ao baixo custo, são sintetizados pelo organismo facilmente e baixa toxicidade para muitos organismos. Contudo uso de inseticidas requer uso periódico, o que é barato acaba saindo caro, as pragas ficam resistentes, as pessoas correm risco de intoxicação e são causados danos e contaminação ao meio ambiente (Prado 2003). 

Então qual é a saída para o controle das pragas?

A melhor forma é pensar de maneira sustentável, utilizando produtos que não agridam o meio ambiente. O controle integrado de pragas visa melhorar a eficácia, rentabilidade, solidez ecológica e sustentabilidade no controle de vetores (IVM 2004). 

O Manejo ou Controle Integrado de Pragas (CIP) é a seleção e a implementação de vários métodos de controle (e não só um como realizado anteriormente, método químico) de pragas nocivas à saúde humana ou prejudiciais à economia levando em consideração aspectos sociais, econômicos e ecológicos (Prado 2003). O CIP tem como pressuposto a utilização mínima de produtos químicos buscando alcançar o mínimo de impacto ambiental.

Para se desenvolver um programa de controle integrado de pragas urbanas é necessário seguir alguns passos conforme as instruções da ABNT NBR 15.584-2: Em primeiro lugar deve haver um planejamento de todas as atividades a serem executadas para que se tenha êxito nos resultados. O segundo passo é conhecer o local em que se deseja realizar o controle de pragas. Entre os fatores considerados relevantes para o diagnóstico da área podemos citar: medidas da área, conhecer todo o entorno, a arquitetura do local, como são realizadas a coleta de lixo e a limpeza da área. O tipo de imóvel se residencial, comercial ou fábrica, irão auxiliar muito neste momento. O terceiro passo é a identificação das espécies, num tratamento integrado não devemos trabalhar com protocolos generalistas. Desta forma saberemos a quantidade determinada de um produto para controlar aquela espécie. O quarto passo é a execução do serviço que compreende medidas preventivas e curativas. O Quinto passo é a fase de monitoramento. Esta é uma das mais importantes, pois evita que a infestação volte. As ações de monitoramento devem ser realizadas por inspeção visual e devem ser realizadas diariamente ou quinzenalmente dependendo da praga. O sexto passo é a avaliação dos resultados. Segundo Chaves (2016) “Analisar a sazonalidade das pragas e rastrear suas ocorrências propiciam ajustes ao programa, adequações aos objetivos e, principalmente, a escolha de técnicas mais assertivas aos propósitos filosóficos do Manejo Integrado das Pragas.”

Finalizando...

O Manejo integrado de pragas (MIP) urbanas surge como uma opção viável, ecologicamente equilibrada que visa o controle de pragas preservando os recursos naturais.  Este tipo de técnica está em constante aperfeiçoamento sempre buscando a melhor qualidade de vida da população e menor impacto ambiental. A busca incansável por produtos e fórmulas que afetam cada vez o menos o meio ambiente aliado ao monitoramento constante fazem deste o método a ser empregado por estas e futuras gerações. 

* Do grego “syn” quer dizer junto, agregado e “anthopos” do homem. 
**Domissanitários - São as substâncias ou preparações destinadas à higienização, desinfecção ou desinfestação, por exemplo, raticidas ou inseticidas (INCQS, 2019).

Referências

BRASIL. 2006. IBAMA. Instrução Normativa 141/2006, Regulamenta o controle e o manejo ambiental da fauna sinantrópica nociva. Disponível em: http://www.ibama.gov.br/sophia/cnia/legislacao/IBAMA/IN0141-191206.PDF. Acesso em: 10. jan. 2019.
CDC. 2019. Disponível em: https://www.cdc.gov/nceh/clusters/fallon/ddtfaq.htm. Acesso em: 12 jan. 2019. 
KONKEL, 2015. National Geografic. Disponível em:https://news.nationalgeographic.com/2015/06/15616-breast-cancer-ddt-pesticide-environment/. Acesso em: 12 jan.2019.
INCQS – Instituto Nacional de Controle de Qualidade em saúde. 2019. Disponível em: https://www.incqs.fiocruz.br/index.php?option=com_content&view=article&id=88&Itemid=96. Acesso em: 14 jan. 2019. 
IVM. 2004. Global Strategic Framework for Integrated Vector Management. Disponível em:http://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/68624/WHO_CDS_CPE_PVC_2004_10.pdf;jsessionid=D36A59DFC56C2B9F3A52ABD86A337378?sequence=1, Acesso em 12. Jan.2019.
PRADO, 2003. Palestra. Controle das principais espécies de moscas em áreas urbanas. Disponível em: http://www.biologico.sp.gov.br/uploads/docs/bio/v65_1_2/prado.pdf. Acesso em 12.jan.2019.
SANTOS E DONNICI, 2007. Compostos organofosforados pentavalentes: histórico, métodos sintéticos de preparação e aplicações como inseticidas e agentes antitumorais. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/%0D/qn/v30n1/27.pdf. Acesso em: 12 jan.2019.

Sites consultados

O globo. Disponível em: https://g1.globo.com/pa/para/noticia/menos-de-10-da-populacao-paraense-tem-acesso-a-rede-de-esgoto.ghtml. Acesso em: 10. jan. 2019.
Fiocruz. Disponível em: https://www.bio.fiocruz.br/index.php/febre-amarela-sintomas-transmissao-e-prevencao. Acesso em: 10. jan. 2019.
Atual Amazonas. Disponível em: https://amazonasatual.com.br/as-doencas-que-mais-matam-no-amazonas/. Acesso em: 10. jan. 2019.
Ministério da Saúde. Disponível em: http://portalms.saude.gov.br/vigilancia-em-saude/controle-de-vetores. Acesso em: 12 jan.2019.